Sobre / About

Por Andressa Passetti

Caio Bosco – Cerebral

Cerebral é o título do segundo álbum do cantor / compositor e guitarrista Caio Bosco. O álbum é calcado no Rock, Soul, Jazz, Funk e música brasileira, traçando um paralelo entre as técnicas de gravação lo-fi dos anos 90 com a sonoridade psicodélica e soul-jazz do final dos anos 60 e começo dos anos 70.

Como nos seus trabalhos anteriores, todas as músicas e letras são de autoria de Caio Bosco, mas nesse álbum, pela primeira vez, com parcerias nas composições musicais, como no caso das homenagens “Assim Falou o Sábio Milton Santos” (geografo brasileiro), ”Jalsaghar” (filme de 1958 de Satyajit Ray), Obrigado Parra! (proprietário da legendária Disqueria e DJ Wagner Parra) e Tony Villela (surfista guarujaense que morreu afogado depois de salvar cinco pessoas de um afogamento), que são de coautoria dos músicos Juca Lopes (bateria), Fábio Peracini (baixo) e Davi Karnauchovas (piano elétrico e sintetizador), que participaram das gravações do álbum e compuseram todas essas músicas com o Caio em jam sessions gravadas em um take apenas. Outro frequente colaborador, DJ Beto Machado fez scratches nos overdubs de algumas faixas, além de Caio Bosco que não só canta e toca guitarra, como produziu e dirigiu musicalmente o álbum, fez todos os backing vocals, tocou sintetizador em algumas faixas e manipulação de fita (para fazer os overdubs e criar alguns efeitos psicodélicos).

Continuando as parcerias que tiveram início com seu álbum homônimo de 2012, o artista pode trabalhar novamente com os legendários Jim Waters (produtor do Now I Got the Worry do Jon Spencer Blues Explosion entre outros), coproduzindo e mixando o álbum em sistema analógico no Waterworks Recordings em Arizona / E.U.A., assim como a masterização de Fred Kevorkian em Nova York / E.U.A.

As bases do álbum foram gravadas de maneira analógica, utilizando um Portastudio de fita cassete Tascam de quatro canais, com os músicos tocando juntos em uma sala na casa da mãe do artista em Guarujá, litoral de São Paulo. Os instrumentos usados para o disco ajudaram a dar uma timbragem especial como uma guitarra Framus (1965), um piano elétrico Suette (fabricado a mão no Brasil na década de 70), um sintetizador analógico Voltix (também feito à mão no Brasil), um baixo Fender Musicmaster (1977), além de amplificadores valvulados e a bateria que foi gravada com um só microfone, utilizando a ambiência da sala.

Outro fator é a voz característica de Caio Bosco, que com desenvoltura mostra a sua influência Soul, Jazz e Blues para cantar letras que tratam de temas como o homem, a tecnologia e o consumismo (“Bem que você Chegou”), música como religião (“Música Religião”), as segregações sociais da cidade, a especulação financeira e imobiliária, o estilo de vida litorânea contemporânea (“Somos do Litoral” e “O Astro Rei”).
O álbum marca o primeiro lançamento da Almanaloga Records e pode ser

ouvido em vários formatos: CD, Digital, fitas Cassetes artesanais e uma edição em Vinil (LP) numerada e produzida como objeto de arte. A capa e o encarte trazem pinturas do artista plástico Cristiano Sidoti, que também dirigiu o primeiro vídeo clipe desse álbum, “O Astro Rei”. A pintura como capa realça a sonoridade do álbum, através da expressão e das pinceladas livres, onde se permite o sentido humano de que o “erro” é o “acerto”! Seguindo esse conceito desde o início, muitos dos instrumentos, inclusive os vocais foram gravados na integra, sem manipulações e correções digitais.

Para Caio o Cerebral marca mais um passo, que junto com os EP’s Diamante (2009) e Fårö (2013), mais o álbum homônimo de 2012, mostram uma trajetória de amadurecimento e evolução em cada trabalho.

 

English Release

Cerebral is the second studio album by the brazilian singer, songwriter and guitar player Caio Bosco. The album incorporates and blends musical elements of Rock, Soul, Jazz, Funk and brazilian music, drawing a parallel between the lo-fi recording techniques of the 1990’s with a Psychedelic Rare Grooves sound of the late 1960’s and early 1970’s.

Like on his past studio albuns, all the songs and lyrics were written by Caio Bosco, but in “Cerebral”, for the first time, with collaborations on the musical creations. There are many tributes like “Assim Falou o Sábio Milton Santos” (for the brazilian geographer), ”Jalsaghar” (Satyajit Ray’s movie of 1958), “Obrigado Parra!” and Tony Villela (brazilian surfer who died after drowning saving five people), which are co authored by Juca Lopes (drums), Fabio Peracini (bass) and Davi Karnauchovas (electric piano and synthesizer), the musicians participated with body and soul on the recording sessions and they composed all these songs above with Caio in jam sessions recorded in one take only. Caio Bosco didn’t only sing and play the guitar, he produced, musically directed, recorded all the backing vocals, synthesizers and drove the tapes (to make overdubs and create some psychedelic effects).

Continuing the partnership that began with his eponymous album, the artist worked again with the legendaries Jim Waters (producer of the Jon Spencer Blues Explosion’s album “Now I Got Worry” and others), that co-produced and mixed the entire album using analog system at the “Waterworks Recordings” in Tucson / Arizona, as well as Fred Kevorkian, whose mastering was made in New York.

The instrumental tracks of the album were recorded in analog system, using a Tascam Portastudio 424 mkII 4 Track Cassete Tape Recorder, with the musicians playing together in a room in the artist’s mother’s house in a beautiful beach coast of Sao Paulo State. The instruments used on the recordings helped to define the timbre of the album, as a wonderful Framus guitar (1965), a brazilian handmade electric piano of 1970’s, a brazilian handmade analog synthesizer, a Fender Bass Musicmaster of 70’s, besides tube amps and the
drums were recorded with only one microphone, using the sounds and reverberations of the room.

The distinguished Caio Bosco’s voice, shows ability to sing with his influences of Soul and Blues, lyrics that talks about various themes such as compulsive consumption and capitalism (“Bem que você Chegou”), music as religion (“Música Religião”), the social segregation of the city, the financial and estate speculation, the style of contemporary coastal life and the false idea of development in nowadays (“Somos do Litoral” e “O Astro Rei”).

To Caio, Cerebral is another step, but, together with the two EP’s “Diamante” (2009), “Fårö” (2013) and his first full length solo album (2012), shows a path of maturation and evolution on each stage of his carreer.

Por Salomão Terra

Num universo de tendências e pressupostos musicais tão bem contornados, romper as fronteiras estéticas e propor algo de novo é tarefa árdua e incomum. Neste sentido, e indo na contramão de formas e parâmetros óbvios, o músico do Guarujá Caio Bosco lança seu primeiro disco solo, homônimo.

Para quem não o conhece, Caio Bosco começou sua carreira em 2005 com o duo Radiola Santa Rosa e com seu álbum de estreia, “Disqueria”, uma mistura de hip hop, dub e tropicalismo. No final de 2007, depois do término do projeto, foi desenvolvendo suas próprias canções e sua sonoridade, até “Diamante EP” de 2009, um trabalho lo-fi, com seis faixas que propõe uma música brasileira calcada no rock, funk/soul 70’ e eletrônica.

De lá para cá, o músico teve oportunidade de recrutar nomes como Jim Waters (Jon Spencer Blues Explosion, Sonic Youth e Calexico) e Alexandre Basa (Wallbangaz, Black Alien e Turbo Trio), além do percussionista Malásia (membro original da banda gaúcha Ultramen) para a produção de seu disco. As gravações foram feitas em home estúdios e estúdios profissionais em Guarujá, Santos e São Paulo, a mixagem do álbum foi toda feita em sistema analógico por Jim Waters em Tucson/Arizona e a Masterização a cargo de Fred Kevorkian (White Stripes, Iggy Pop) em NY/EUA.

Sintetizando todos esses vetores, Caio Bosco (o disco) é uma demonstração do primor na busca por uma linguagem própria. Seja em timbres, temáticas de letras ou pelo conceito (quase esotérico) que amarra todo o trabalho, cada elemento parece ser milimetricamente pensado para ter seu tempo e coerência. Formalmente, o trabalho pode presumir correntes como o funk setentista, ou um rock de sofisticação, mas reduzir todo o universo possível de interpretações a gêneros e perder a oportunidade de uma fruição completa.

Em Frente abre com um baixo cravado, sob uma linha de guitarra bem ritmada e pianos na medida. Mendigos de Amor (primeiro single) é uma “semi-balada” que traz a temática feminina de uma forma fluida, com destaque para os backin vocals no estilo mais retrô. Miss High Times tem um clima praiano (com direito a mar e gaviotas ao fundo), carregada de samplers e uma levada underground tendendo ao Hip/Hop. Feira do Rolo aproxima da metade do disco como uma faixa enigmática (de timbres jazzísticos), em que Caio instiga: “Eu fui na Feira do Rolo / Fui trocar a minha dor / Por um par de toca-disco / Para esquecer a minha flor / Que fugiu do meu quintal / Agora não somos mais um / Até a abelha reclamando que não faz mais zum zum zum”. Olhos D’agua mergulha ainda mais numa introspecção cadenciada, aqui envocando a figura do jovem cancioneiro pop no melhor estilo Jeff Buckley.

Corredor abre a segunda metade do disco valorizando as percussões quase num mantra/reggae desconstruído. Pare e Pense, em seguida, tem um tom grave, sob uma crítica ao poder, ao sistema e às perspectivas unilaterais. Musa, Música Perfeita mergulha em bases eletrônicas, guitarras fankeadas e distorcidas, com vocais ácidos, como um lado B essencial. Saudade reforça a guitarra cristalina carregada de wah-wah e uma paixão esfuziante, como uma preparação para Pernambuco Beach, um rock psicodélico revisto, de beira praia. Trilha é pura energia condensada numa cadência rápida amaciando os ouvidos para o reggae conceitual Mandala, Manda-la.

E assim, se constrói um trabalho de relevância, que aponta não somente a busca pela qualidade e autoria, mas pela libertação de engessados estilos musicais.

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